Será uma revolução?

Será uma revolução?

A primeira vez que ouvi Legião eu tinha 5 anos. Foi a minha tia Helena, fã de Elvis Presley, quem me alertou sobre a importância da Banda e do seu vocalista para o cenário musical brasileiro: – “Yve, você precisa escutar essa música, é do Renato Russo!”, alertando-me entusiasmada ao som de Será. O impacto deste evento e a paixão sentida ao ouvi-los foi tamanha que nunca mais esqueci.

A canção de estreia do álbum intitulado Legião Urbana lançado em 2 de janeiro de 1985, pela EMI-Odeon foi realmente uma verdadeira revolução musical.

As onze músicas autorais do grupo retratam a vivência e os ativismos ideológicos dos jovens brasilienses – a Turma da Colina – e dão uma resposta, ou melhor, um chute na porta do conservadorismo vivido nos anos de chumbo da ditadura militar.

Por isso é praticamente impossível desvincular o lançamento do álbum Legião Urbana, da banda, também icônica, Aborto Elétrico, formada por Renato Russo e pelos irmãos Fê e Flávio Lemos.

Afinal foi essa tchurma, como Renato gostava de dizer, que tornou público o potencial artístico do movimento pós-punk de Brasília abrindo caminho para o sucesso em nível nacional de bandas como Plebe Rude, Capital Inicial e a própria Legião Urbana.

A sonoridade do disco influenciada pelo punk e new wave londrino foi uma conquista e uma negociação delicada coma gravadora EMI, haja vista a carência de produtores que acreditassem no retorno financeiro de artistas com um perfil tão contundente quanto a Legião Urbana.

O produtor Mayrton Bahia foi nesse sentido uma figura importantíssima para que a Legião Urbana cumprisse a sua primeira missão de forma tão contundente e improvável para o mercado fonográfico. Só para constar, o álbum vendeu mais de 1.200.000 cópias.

Para os mais críticos, a Legião se assemelhava a conjuntos já estabelecidos como The Cure, Gang of Four, Smiths e Ramones, contudo, a identidade Legionária estava, naquele momento, para além da sonoridade, nas letras de Renato Russo.

Contra todos e contra ninguém, 35 anos após o seu lançamento, o álbum Legião Urbana é ainda um retrato do país. As faixas, uma a uma se tornaram as mais conhecidas e emblemáticas para a grande massa, tornando-se verdadeiros hinos.

Em uma entrevista Renato Russo afirmou que as críticas ao primeiro álbum não dialogavam verdadeiramente com o espírito das canções.

“Muitos disseram que nosso primeiro disco é pessimista, político, pesado e negativo. Eu não acho, porque são apenas comentários de coisas da vida. ‘Será’ é uma música esperançosa, ‘Geração Coca-Cola’ aponta o dedo porque é irônica e ‘Por Enquanto’ fala de saudade, da coisa do amor. ‘O Reggae’ tem uma letra violenta sobre o sistema educacional e a hipocrisia em geral. Embora as letras não ofereçam soluções e happy ends, não acho que sejam pessimistas. É um reflexo do que a gente vive”, destacou.

Muitas vezes as críticas pareciam querer calar as importantes denúncias contra a violência urbana, como em Baader Meinhof Blues e os impactos da guerra, em Soldados.

Ali o eu lírico questionava as razões para a existência humana em um meio tão opressor e desigual, onde o desejo juvenil era apenas poder existir com liberdade.

Em A Dança, a levada new wave, com base eletrônica, traz no cerne a temática do machismo. Uma letra corajosa e ao mesmo tempo crítica aos próprios caras autointitulados punks, manos que de “tão espertos e modernos” acabaram cometendo os mesmos erros dos seus antecessores, como já alertara a canção de 1976 de Belchior: “Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.

Geração Coca-Cola tornou-se o tema musical dos último 30 anos, e, ironicamente deixou de ser compreendida nos tempos atuais, por uma parcela da população jovem, que por não terem visto de perto as injustiças da ditadura, assumem-se felizes filhos da tal ‘revolução’, que todos sabemos ter sido um golpe.

Petróleo do Futuro continua essas denúncias buscando clarificar a armadilha que havíamos caído. “Ah, se eu soubesse lhe dizer o que eu vi ontem à noite você ia querer ver, mas não ia acreditar. E o que é que eu tenho a ver com isso? Filósofos suicidas, agricultores famintos desaparecendo embaixo dos arquivos”.

E as ilustrações do encarte feitas pelo baterista Marcelo Bonfá? Faraós sendo exaltados, templos sendo levantados, imagens que dialogam e harmonizam, como as batidas de sua bateria, com a intencionalidade das letras.

Por enquanto, com quase 40 anos de existência, a jornada da maior banda de rock brasileiro segue mais viva do que nunca, respondendo afirmativamente o questionamento feito em Será:

– Não, não foi só imaginação. Muitas histórias incríveis aconteceram. Nada foi em vão. E sim, a Legião Urbana permanece vencendo a tudo!

Força Sempre! Viva Renato Russo!

Yve de Oliveira

 

 

Publicado por Lugar de Fala

Este espaço reflete o meu Lugar de Fala na forma de poemas, entrevistas, fotografias e podcasts. Acabei de lançar um livro Yo Você We - Minhas Experiências com o Amor e apresento um programa ao vivo no Instagram Stories chamado Lives de Segunda ( Todas as segundas-feiras, às 20h30)

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